Quis o destino que exatos dez anos depois desse dia, eu estivesse em frente ao computador escrevendo sobre ele. E mais: relembrando cada detalhe e voltando num tempo que só agora, depois de tanto, eu consigo valorizar. Escrever o livro da Rima me mostra a cada dia o quanto todas as fases de uma carreira são importantes. E, ao descrever este espetáculo, coincidentemente no aniversário, percebi que esta, iniciada no dia 26 de março de 2015, é a que até hoje mais me impacta.
Até esse dia eu não sabia que era um artista. Claro que o era já há cinco anos, desde quando eu produzia a Galera da Rima, porém, realmente não tinha a menor noção disso.
Esse disco e esse espetáculo não foram escritos nem por mim, nem pra mim. Se eu não tivesse feito nada, teria sido mais um músico, em mais um dia de trabalho, em mais um palco. Teria sido eu, mais um comum naquela banda, que de fato era maravilhosa, mas que estava lá por estar, sem emoção, sem vida.
Algo dentro de mim, já nos primeiros acordes, mudou naquele dia. Eu sentia que desapareceria em meio aos arranjos, e ao destaque que o roteiro dava exclusivamente à cantora. Mas, eu também sabia que o nome CORDAS E RIMAS sempre pertenceu à Paulinho de Campos, e ali, como um herdeiro muito honrado, eu tinha ciência de que era o único responsável por essa MARCA (que, aliás, desde o ano passado é registrada ®, nos protegendo, porventura, de poetinhas por aí).
Nesse dia, eu passei por cima de todo o roteiro e de todos os protocolos do espetáculo. Nesse dia, 10 anos atrás, eu tomei conta de um palco inteiro, sem nunca ter feito nada parecido. Nesse dia, eu combinei com o meu irmão Patrick Hertzog que ele tocasse um solo que havia criado, mesmo sem ter sido autorizado pelo arranjador. Nesse dia, eu não permiti, durante o show, que fosse feita uma homenagem sem contexto a alguém, apesar de estar no roteiro. E fui além: homenageei os meus pais, que eram os únicos responsáveis por todo aquele espetáculo acontecer, e os convidei para subir no palco na última música, assim evitando a invisibilidade deles.
Nesse dia, eu agi como um cantor experiente, dominando e fazendo o público prestar mais atenção em mim do que em qualquer outra pessoa naquele palco. Fiz tudo isso sem ter planejado nada, somente no impulso, tudo na hora.
Nesse dia eu me tornei o músico que sou hoje. Nesse dia eu criei, com o Hert, de fato, o novo Cordas e Rimas. Nesse dia eu decidi, com ele, que dali por diante, nossos discos e espetáculos seriam inteiramente idealizados, roteirizados e realizados por NÓS. E assim foi: com Olhar Viajante, Categorias de Base, Porto Além, entre outros trabalhos que realizamos e estamos realizando.
O dia em que se comemora o aniversário de Porto Alegre, também é para mim, o dia em que eu nasci como artista. E assim, hoje, completando meus 10 aninhos, eu quis compartilhar esse sentimento com o mundo.
CATTULO DE CAMPOS, 26/03/2025.



